Levantei os olhos do livro e comecei a buscar que tipo de seres vivos poderia se encaixar na até-então-improvável categoria de “ser vivo imortal”, designada (ao menos para mim) somente a seres etéreos e entidades superiores... Não consegui pensar em nenhum ser que eu soubesse fosse imortal. Continuei a leitura e descobri que existem bactérias, por exemplo, que são tomadas como imortais porque se dividem sucessivamente formando indivíduos iguais e idênticos entre si. Como o próprio senhor Varella conclui, como poderíamos dizer que a bactéria morreu se não há cadáver dela?
Na verdade, o que houve foi uma transformação: um corpo se dividiu em duas réplicas idênticas, que também vão se subdividir respectivamente em outras duas réplicas idênticas, e assim sucessivamente, eternamente... Elas podem, por uma eventualidade, morrer (de fome ou pelas condições de temperatura do ambiente), mas se as condições forem adequadas vivem para sempre nessa perpétua subdivisão de si mesma...
O universo é imenso e tantos fenômenos ocorrem que nos são ainda desconhecidos! O contrário de morrer não é necessariamente viver com o mesmo corpo e nas mesmas circunstâncias. As transformações são mesmo inerentes ao Universo; nada permanece imutável por toda a eternidade, tudo é infinito enquanto dura.
Estamos habituados a dividir confortavelmente o mundo em dois: branco e preto, certo e errado, bom e mau, fácil e difícil, caro e barato, bonito e feio, feliz e infeliz. E essa reflexão sobre a dualidade, especificamente sobre a felicidade/infelicidade, trouxe-me à memória um velho recorte de jornal de uma charge (NOW SEM RUMO/Lor, Agência Punarte, Pro Renato, Lor 342) que guardo desde a minha adolescência.
São três quadros. No primeiro vemos um senhor idoso, rico e calvo sentado em uma cadeira fumando um charuto enquanto pensa: “Bem cedo descobri que a infelicidade vem quando a gente se torna dependente afetivamente!”
E em um outro balão de pensamento, ele continua: “Para não ser infeliz passei a vida evitando qualquer ligação mais profunda com pessoas!”
No segundo quadro, vemos que a cadeira em que ele está sentado é de rodas e que um manto cobre suas pernas. Continua o pensamento: “Hoje sou um homem livre, mas descobri outra coisa...”
No último quadro, ele conclui: “a felicidade NÃO é o contrário da infelicidade!” (grifo meu)
Uma outra percepção aludida por essa charge é a de escolher ser deliberadamente solitário em oposição a se sentir solitário. Muitas pessoas temem a solidão, pois ela é vista impregnada com um sentimento de tristeza, melancolia, a imagem do desamparo e da indefesa. É quando nos sentimos solitários (e queremos desesperadamente a companhia de uma pessoa amiga).
E, no entanto, a solidão é muito importante, pois é somente ela que nos propicia centrarmos nossa atenção em nós mesmos sem a distração externa, em que aprimoramos nossos pensamentos, refletimos sobre as situações da vida para contemplar a beleza, a alegria, a ternura, e também é nela que podemos abordar nossos problemas cotidianos para tentar encontrar uma solução. É o único momento de paz e de silêncio para conversarmos conosco, e deve ser mais respeitado e muito melhor aproveitado, e não negado, nem, muito menos, temido.
O ideograma japonês correspondente a “silêncio” (que é originário do ideograma chinês), é formado por dois radicais: no lado esquerdo, o radical que significa “controlar” e no direito, o “conflito”. Assim, quando controlamos o conflito, surge o silêncio.
Neste início de século XXI onde apreciar a solidão é mal visto e muito mal compreendido, penso ser importante resgatar o silêncio e a conversa consigo mesmo para retomarmos o equilíbrio do espírito e a comunhão entre a mente e o coração. Afinal, a pessoa mais importante do mundo sempre será o “eu”; e não se enganem: por mais que amemos uma pessoa, ela sempre virá depois do “eu”. Então, que tal cuidarmos com mais ternura desse “eu”?
E por mais estranho que possa parecer, vem a pergunta: e como seria um bem-cuidar de si mesmo? A resposta me veio aos poucos e com a infinita paciência de uma amiga que me é muito querida. É incrível como temos tão pouca habilidade de nos cuidarmos bem... Não é uma coisa fácil como pode parecer à primeira vista. Requer esforço e um grande amor a si mesmo (e creio que seja nesse segundo quesito que todos faltamos: simplesmente achamos que não devemos ser egoístas o suficiente para pensarmos em nós mesmos antes da comunidade ou do outro, que não devemos pensar no nosso próprio prazer de-li-be-ra-da-men-te, mas procurar dar antes de pedir, e que todo o sofrimento atual será recompensado em um futuro (muito pouco) próximo!).
E essa resposta, que ainda estou procurando inserir na minha vida, é: cuidando de seu corpo e do seu espírito. Do seu corpo, alimentar-se bem, exercitar-se, dar-se o prazer de sentir a beleza através de todos os sentidos. Contemplar coisas belas, ler textos que elevem seu espírito ou agucem sua imaginação, ouvir músicas agradáveis, ter contato com superfícies que lhe confortem, sentir o aroma delicado de uma flor, degustar um pão que acabou de sair do forno... Do seu espírito, fortalecê-lo com a disciplina, a vontade, a perseverança, a temperança. Isso é cuidar-se com esmero. Alimentar sua alma com a beleza e a bondade e alimentar a sua mente com o pensamento e a imaginação.
E como uma última observação sobre a beleza, o ideograma japonês para “sabor” ou “gosto” é formado pela idéia de perceber a beleza através da boca! Sintamos, pois, a beleza em todos os sentidos! Nós merecemos.
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