Passamos a vida recolhendo, colecionando, trazendo coisas para dentro da casa e sentimentos para dentro da alma. Relutamos descartá-las. E quanto maior o tempo que os mantemos, mais acalentamos e com mais força retemos. Nesse amontoado de objetos e sentimentos, o cérebro perde sua capacidade de discernimento. É como trancar um compositor de músicas em uma sala fechada tocando no modo repeat a sua peça favorita no último volume e deixá-lo com a missão de compor uma música de gênero completamente diferente. Por gostar da peça, ele se distrairá facilmente sem conseguir se concentrar na sua tarefa.
Na cultura oriental penso que são consideradas com maior severidade as faltas efetivamente cometidas, ou seja, quando as pessoas ultrapassam a linha invisível das regras socialmente estabelecidas e fazem o que supostamente não deveriam fazer. E, no entanto, quando alguém deixa de fazer algo que deveria ter feito, isso não é considerado tão grave.
Não é contraditório que uma FALTA tenha sido cometida pelo EXCESSO?
Os que conseguem se conter, resistem firmes aos desejos “censuráveis” e NÃO FAZEM, esses são virtuosos. Já os que se deixam levar pela vontade e AGEM, esses são vistos com “olhos brancos” [shirome], uma expressão japonesa onde os olhos são direcionados sobre os hipotéticos desmerecedores de forma que a pessoa se sinta insignificante.
Logo, para evitar cometer qualquer falta, as pessoas se paralisam com o medo e concluem que a melhor estratégia é (adivinhem!): não fazer nada. Começa assim o conflito de terem plena consciência de que queriam fazer, mas que não deveriam querer. E vem a famosa c-u-l-p-a.
Mas e quanto ao arrependimento? “Eu me arrependo, me desculpe, tire este fardo sobre mim, por favor! Com uma única palavra, gesto ou olhar, você me libertará desta horrenda culpa.”
Vocês sabem que não é bem assim. Não basta o outro nos des-culpar, ou seja, desfazer a culpa lançada sobre nós. No ato de culpar há o erro (dor), o culpado e o “culpador”. Embora estejam em pólos opostos --- acusado no pólo passivo e acusador, no ativo ---, em ambos recai a mesma dor.
Muito se disse que os que mais impiedosamente julgamos e os que menos facilmente perdoamos somos nós mesmos. Eu concordo. Dá muito prazer sentir que somos magnânimos por perdoar o outro: o mundo inteiro vê isso como um ato muito nobre. Mas perdoar-se, ah, isso revela uma fraqueza humana de um comodismo extremo quase inaceitável!
É mesmo incrível observar que nós ainda não sabemos direito como lidar com a culpa que nasce em nós. Deveríamos simplificar as coisas e os sentimentos: okay, erramos; refletimos com atenção a respeito; fazemos alguma coisa para reparar o erro; fechamos o assunto. Aprendemos a lição. Libertamos a culpa. Passamos para a próxima lição.
Mas, não! Obviamente, as coisas precisam ser complicadas. E por sermos incapazes de nos perdoarmos, por retermos a culpa dentro de nós por tanto tempo, acabamos infectando o corpo físico. (As pessoas adoecem por nutrirem a culpa!)
A palavra “perdoar” em japonês [yurusu] possui diversos significados e há doze ideogramas para representá-los. Dentre os mais interessantes estão: a) dar à luz uma criança; b) deixar fugir; c) largar ou libertar; d) ver os fatos com compaixão; e) acreditar como verdade e aceitar; f) despir-se; g) derreter ou diluir; h) receber; i) procurar pela origem; j) ouvir com muita atenção.
Ironicamente, atualmente a palavra mais coloquialmente utilizada para “culpa” [sei] não é expressa com nenhum ideograma! (Antigamente a palavra [sei] era escrita com dois ideogramas, mas caiu em desuso e hoje ele é escrito em hiragana, isto é, sem o uso de ideogramas.)
Podemos concluir que para culparmos (nós mesmos ou outrem) não precisamos refletir nem pensar muito a respeito: simplesmente culpamos. Já para perdoar, precisamos de uma dúzia de etapas: internalização, investigação, compreensão, aceitação, diluição da dor e, finalmente, liberação!
Longe de mim suscitar a auto-complacência e a carência de autocrítica. O que gostaria de fomentar é que as pessoas não fiquem carregando uma cruz por mais tempo do que o necessário (sim, é preciso carregá-las por um certo período de reflexão). Deveríamos carregar o que quer que fosse até aprendermos a lição. Depois, é preciso liberar essa coisa. Assim estaremos livres para aprender uma nova lição.
Sejamos, pois, mais práticos com o perdoar tanto quanto o somos com o culpar!
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Faltou falar sobre os que acham que o erro cometido é imperdoável, inaceitável, irreparável. Engrandecem o erro mais do que ele merece. Qualquer ocasião, qualquer incidente é motivo para relembrarem e reviverem a culpa do outro. Nasce o rancor e morre a paz de espírito. Será que vale a pena manter essa troca? O que de bom traz o ressentimento? Que coisas maravilhosas ele impulsionará e criará em sua vida?
Estar no pólo ativo (acusador) não significa, necessariamente, que se está no comando nem, muito menos, no controle da situação.
Pense nisso.
E FAÇA alguma coisa antes que perceba ter perdido anos de sua preciosa vida enrugando a pele e também a sua alma. Ultrapasse a linha. Exceda-se!
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