Tuesday, January 6, 2009

EU SOU A SUA CASA

Quando percebemos que estamos encurralados e sem opção, surge em nós uma força inacreditável e até então inimaginável.

Na minha adolescência, minha mãe costumava dizer que há dois tipos de conhecimento: aquele “raso”, superficial em vários temas (asakute hiroku 浅くて広く) e aquele especializado em um assunto (fukakute semaku 深くて狭く). E como sempre fui entusiasta da diversidade e da novidade, ela sempre me acrescentava, orientando: o melhor é o especializado, pois ainda que seja em um único assunto, a necessidade de se aprofundar nesse conhecimento termina por sempre impulsionar a pessoa a estudar outros assuntos (correlatos ou não) e ao final ela acabará diversificando e enriquecendo naturalmente o seu conhecimento.

Além do conhecimento, esse mesmo comportamento é aplicável nos relacionamentos: superficial e com muitas pessoas, ou profundo e com poucos eleitos.

O primeiro modelo (raso) não requer grande esforço: basta seguir o fluxo do pensamento. Mas o segundo modelo... Ah! Exige uma dose extraordinária de paciência e requer muita dedicação.

É comum os relacionamentos serem comparados com o cuidar de uma planta. E sobre plantas, conversando com um grupo de amigas, descobri que não basta aguá-la, podá-la e colocar algumas vitamininhas de potássio, fósforo e nitrogênio de vez em quando. Tudo isso, claro, faz com que a planta permaneça viva. Mas ela não lhe oferecerá sua beleza em todo o seu esplendor se você insistir nesse procedimento básico. É preciso trocar a planta para um vaso maior e também afofar a terra a cada um ou dois anos, orientaram elas. Dá muito mais trabalho do que eu imaginara.

Nos relacionamentos, como no cuidar das plantas, o procedimento e a manutenção básica são satisfatórios apenas ao convívio social. Como tudo o que importa nesta vida, nos relacionamentos que valem a pena é preciso ir além. É preciso forçar-se a descobrir uma nova pessoa naquela pessoa que você supõe já conhecer. E ao mesmo tempo reinventar-se para mostrar que você não é só essa pessoa que você mostra que é: você pode ser e é muitas outras pessoas dentro de você!

Masashi Sada, músico japonês, compôs letra e música chamada Kanpaku Sengen [ 関白宣言: “Declaração do Chefe”, em que o termo “chefe” se refere a um antigo cargo de Conselheiro-Chefe do Imperador]. Nela, além de muitas peculiaridades, ele evoca a imagem do marido ser a “casa” e a família da esposa. O comprometimento dela deve ser tanto que ela não mais deverá considerar sua família de origem como pessoas a quem recorrer ou uma casa para onde voltar.

A letra foi escrita a partir de um pedido pessoal feito ao músico por uma empresária, que observou que as mulheres à época (década de 70) não tinham a mesma fibra das mulheres em sua juventude. No entanto, mesmo em tom galhofeiro, foi mal interpretada por muitas mulheres no Japão.

Ora, se o casal pensar que sua única morada e sua única família são o outro, e se eles mantiverem em mente o voto de fidelidade, confiança e amor que fizeram na cerimônia de união, então talvez pela primeira vez surja a possibilidade REAL de que o amor seja tudo de que precisem, pois já terão o comprometimento total de serem o lar um do outro.

E se tiverem a convicção de que um ao outro é TUDO o que têm e que não existe nenhuma outra opção, então talvez possam viver uma história amor, desses amores reais, compostos por inúmeros incidentes corriqueiros e despretensiosos, mas que, somados, contam a belíssima História do Casal.

E, refletindo, não é isso que aconteceu conosco no papel de filhos, na casa de nossos pais, durante a nossa infância e adolescência? Não aprendemos a ver as várias pessoas que há no nosso pai e na nossa mãe? E nesse processo não fomos nos “reinventando” também? E isso não ocorreu porque aquela casa, aquele pai e aquela mãe eram o nosso único lar e nunca houve outra “opção” de lar, nem nunca nos passou pela cabeça procurarmos novos pais e novo lar para morarmos (por pior que fosse a briga/mágoa e por mais que fantasiássemos fugir de casa)?

Porque sabíamos que pertencíamos àquele lar.

Ser a “casa” de alguém e estar limitado a uma só “casa” são difíceis de se acatar em um mundo tão cheio de “opções”, ainda mais quando acreditamos ser assim tão independentes e auto-suficientes! Requer disciplina e muita dedicação. Mas vocês não acham que vale a pena?

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