Tuesday, January 6, 2009

O FIO DA MEADA

Nenhuma gentileza é pequena demais que não possa desencadear verdadeiros milagres.

No canal fechado GNT (www.gnt.com.br) há um programa chamado “Saia Justa” onde Mônica Waldvogel, Márcia Tiburi, Maitê Proença e Betty Lago se encontram semanalmente para conversar sobre diversos assuntos.

Em um dos programas a Betty lançou como tema uma pesquisa feita por uma instituição britânica entre estudantes de 6 a 18 anos. A pergunta era algo como: “se você pudesse eleger uma coisa que pudesse ser feita por um bilhão de pessoas visando melhorar o mundo, o que você elegeria?”

Enquanto elas conversavam fiquei matutando o que poderia ser simples que pudesse ser feito por um bilhão de pessoas e poderoso a ponto de mudar o mundo. E então veio: a GENTILEZA! Não seria fabuloso se um bilhão de pessoas fossem mais gentis umas com as outras? Isso não poderia mudar o mundo?

Uma famosa personalidade japonesa chamada Tetsuko Kuroyanagi escreveu artigos em uma revista ou jornal sobre sua infância passada na escola alternativa de ensino fundamental Tomoe Gakuen, fundada e dirigida por Sosaku Kobayashi. Depois, esses artigos foram reunidos em um livro chamado “Madogiwa no Totto-chan”, de Tetsuko Kuroyanagi [em inglês, “Totto-Chan: The Little Girl at the Window”, traduzido por Dorothy Britton, Kodansha International Ltd., 1a edição em 1996].

Na entrevista com o Diretor para ingressar na escola, Tetsuko, ou melhor, Totto-chan disparou a falar, falar, falar, e a falar sem parar. Contou sobre os vendedores ambulantes da rua, dos passarinhos que fizeram um ninho na árvore ao lado da sua sala de aula na escola que freqüentava antes, de seu cachorro e de muitas outras coisas. E ela falava rápido. Estava acostumada a ser interrompida por adultos sempre que abria a boca. Por isso, precisava aproveitar enquanto durasse o sorriso redondo daquele senhor. Soltou histórias e mais histórias. E as histórias acabaram. Tinha contado tudo o que queria. Silenciou-se, inquieta.

O Diretor: “E então, tem mais alguma história que queira me contar, Totto-chan?

Ela pensou com bastante afinco, pois a magnífica oportunidade não deveria ser desperdiçada, mas descobriu com um profundo desapontamento que não, que já não tinha mais nada que pudesse contar. Nem que quisesse (e ela queria), não havia mais nada a dizer.

Tinha à época sete ou oito anos, e não se recorda de quanto tempo ficou falando. Mas, feitas as contas depois de adulta, calcula que o Diretor ficou nada mais nada menos que QUATRO horas à disposição da pequena Totto-chan, escutando todas as suas histórias. Confidenciou que em toda a sua vida o Diretor fora a única pessoa, antes e depois desse evento, a lhe dar atenção por um período ininterrupto tão longo.

Esse é um tipo de gentileza genuíno e de uma generosidade enorme, não concordam? Doar seu tempo é um luxo a que poucos se podem dar...

Não é à toa que em japonês a palavra gentileza (yasashisa 優しさ) utiliza o ideograma que tem em seus significados a nobreza, a abundância, a flexibilidade, a densidade, a amplitude e a grandeza... e o mais interessante: possui o significado de arte no sentido de atuar e encenar. Um ato polido pode ser facilmente confundido com uma gentileza, mas a verdadeira gentileza tem um quê a mais, pois é acompanhada pela bondade.

No Japão há um interessante provérbio que diz: “Havendo vento, lucro do artesão de barris.” [kaze ga fukeba okeya ga moukaru 風が吹けば桶屋が儲かる]. Como no famoso “efeito borboleta”, o que chama a atenção é a inexistência de um motivo coerente para que um artesão de tonéis de madeira aumente suas vendas após um simples soprar do vento.

Investiguemos melhor esse dito no contexto do Antigo Japão. Ora, é sabido que ventos levantam poeira e o pó da terra. O pó da terra entra nos olhos dos incautos. A incidência de pessoas com problemas de visão aumenta, e os que já tinham problemas nos olhos têm maior probabilidade de perderem a visão. Os que perdiam a visão compravam “shamisen” [instrumento musical japonês de três cordas], já que os cegos sobreviviam fazendo rondas pelas casas tocando “shamisen”. A caixa de ressonância dos “shamisens” têm um tampo feito com pele de gato. Menos gatos, profusão de ratos. Mais ratos, mais barris danificados, pois estes costumavam armazenar mantimentos e eram guardados em sótãos/porões, lugares favoritos dos ratos. Um barril danificado requer a reposição por um novo. Novos barris, novos pedidos: aumento no lucro do artesão de barris.

Como vêem, dois eventos aparentemente sem nenhuma conexão ocorrem com o desdobrar lógico de acontecimentos inesperados. Da mesma forma, se um bilhão de pessoas começar a praticar a gentileza todos os dias, não seria grande a chance de acontecer algo extraordinário e surpreendente?

E não é excitante pensar que esse planeta tão lindo também esteja povoado de pessoas gentis?

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