Reli um livro que foi recomendado durante uma aula de literatura no colégio. Estudei em um colégio técnico e só tivemos aula de literatura no último ano. A professora iniciou uma das aulas nos recomendando com entusiasmo a leitura de um livro maravilhoso que nos mostraria tudo o que precisaríamos saber e conhecer da juventude, da morte, da pobreza, da riqueza, da beleza, da bondade e da verdade. Depois dessa preliminar, já quis logo saber o nome do livro, e fiquei decepcionada com o título: “Servidão Humana” (William Somerset Maugham, “Of Human Bondage”). Eu costumo adquirir muitas coisas pela aparência, embalagem, título, capa.... O título não me agradou nem um pouco, pois me veio à mente uma história de subserviência, de pesadas correntes e bolas de ferro presas nos pés, de prisão, de castigo e outros sem-números de cenas desagradáveis. Mas a professora foi tão enfática, que anotei o nome do livro e ele deve ter sido armazenado em algum recôndito do meu cérebro, pois eu acabei por lê-lo um ou dois anos mais à frente. Estava no primeiro ano da faculdade, entediada com as aulas, não conseguia enxergar perspectiva de uso prático com o que apresentavam nas salas de aula e eu não sentia nenhum talento para aquilo. Minhas grandes alegrias durante aqueles anos foram os amigos que fiz e os ônibus com o enorme tempo de leitura que me proporcionavam: horas acompanhando Jane Austen, Maugham, Stendhal, Gore Vidal, Harper Lee... Lia tudo com avidez - não a do conhecimento, mas (vergonhosamente) pelo tosco prazer de dizer que já lera este ou aquele. Do que li, somente algumas obras me ficaram no coração, e mesmo assim, somente um ou outro trecho e idéia.
De “Servidão Humana”, lembro que me ficou a recordação do personagem principal (Philip Carey) ter encontrado a resposta para o significado da vida. Percorri ansiosa as palavras para saber qual o importante significado da vida e me decepcionei. A vida é desprovida de sentido, concluía Philip, sendo que, para mim, a vida TINHA de ter um sentido (e grandioso, se possível, please).
Uma das boas coisas ao se reler um livro é que ele se lhe apresenta de uma forma totalmente diferente, parece até mesmo um outro livro. E se não fosse a longa fila de livros-ainda-por-ler e o tempo que cada leitura me consome, eu me daria o prazer de reler todos os livros que li nos meus vinte anos. Aprenderia muito mais coisas, certamente. Mas isso é pura nostalgia, e é melhor deixar os vinte com os vinte, e desfrutar dos quarenta de hoje.
Uma observação muito interessante que a professora de literatura ponderou à época foi que o livro deveria ser lido impreterivelmente ANTES de completarmos vinte e cinco anos, pois depois dessa idade não nos seria de nenhuma utilidade. A maioria de nós tínhamos dezoito anos, o que nos dava sete anos para lê-lo. Um aluno perguntou o porquê desta idade limite, e ela respondeu, lacônica: “vocês saberão quando lerem o livro”.
Devo confessar que quando terminei de lê-lo, aos vinte, continuei não entendendo porque deveria ser lido antes dos vinte e cinco anos. Uma boa dica vinda de uma amiga sobre esta idade limite foi que depois dos vinte e cinco anos nosso tempo se exaure com o trabalho, casamento (ou não-casamento), entre outras coisas, e não nos sobra muito tempo para a leitura pura e simplesmente...
Em certa altura, Philip pergunta a um de seus professores de arte se ele possui talento para seguir a carreira e ser um artista de primeira linha. Seus recursos financeiros estão se extinguindo e ele tem um espírito muito prático. Philip fez a pergunta correta: ele possui o talento que o fará emergir como um artista de renome? Valerá a pena suportar a pobreza e a privação, ou será um esforço em vão, como o de muitos que ele testemunhava na Paris do final do século XIX?
Ao deixarmos de fazer as perguntas, deixamos de ter as respostas. E a maioria de nós, quando confrontada com as decisões da vida, procura pelas respostas certas. Contudo, mais do que ter as respostas certas, o mais importante é fazermos as perguntas certas. Porque as respostas surgem após as perguntas, e não antes delas.
E como fazer para formularmos as perguntas? Precisamos despender tempo a pensar e a refletir sobre o assunto. Descobri que meu pensamento voa quando faço uma atividade mecânica banal como varrer o chão ou caminhar. E, também, quando escrevo ou falo comigo mesma. Não é à toa que nos consultórios psicanalíticos os pacientes são postos a falar, falar, e falar. Conversar consigo mesmo é uma coisa fascinante e o recomendo para todos os que tenham alguma inquietação na alma. Falem e façam perguntas, cada vez mais profundas, e vão conseguir chegar ao âmago da questão, que te guiará para as respostas que tanto procuram.
O nosso processo de descoberta deve seguir esse mesmo padrão. Comece com uma frase e depois vá se perguntando os porquês. A cada resposta faça uma nova pergunta e será impelido para uma camada mais profunda. Nós, seres humanos, somos especialistas em criar subterfúgios a fim de acobertar nossos desejos mais autênticos por medo, vergonha, falta de confiança, descrença ou até mesmo preguiça. E cada vez que os escondemos, vamos nos dando motivos mais e mais engenhosamente elaborados para nos convencermos de que estamos fazendo a coisa certa ao enterrar para sempre aquele desejo autêntico. Para reverter esse processo e chegarmos à fonte dos desejos adormecidos, precisamos ter a paciência de revelar, um a um, pedaço a pedaço, as nossas falsas-verdades. E para isso é que servirão as perguntas. Elas é que te salvarão do ordinário, do vulgar, do tanto-faz...
No idioma japonês usa-se o verbo “ouvir” com o sentido de “perguntar”. Assim, por exemplo, a frase “Pergunte a seu professor”, lida ao pé da letra com o verbo “ouvir”, seria: “Ouça o que seu professor tem a dizer”.
Então... Ouça o que você mesmo tem a dizer, e as respostas que tanto deseja certamente te surpreenderão!
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