Tuesday, January 6, 2009

EU SOU A SUA CASA

Quando percebemos que estamos encurralados e sem opção, surge em nós uma força inacreditável e até então inimaginável.

Na minha adolescência, minha mãe costumava dizer que há dois tipos de conhecimento: aquele “raso”, superficial em vários temas (asakute hiroku 浅くて広く) e aquele especializado em um assunto (fukakute semaku 深くて狭く). E como sempre fui entusiasta da diversidade e da novidade, ela sempre me acrescentava, orientando: o melhor é o especializado, pois ainda que seja em um único assunto, a necessidade de se aprofundar nesse conhecimento termina por sempre impulsionar a pessoa a estudar outros assuntos (correlatos ou não) e ao final ela acabará diversificando e enriquecendo naturalmente o seu conhecimento.

Além do conhecimento, esse mesmo comportamento é aplicável nos relacionamentos: superficial e com muitas pessoas, ou profundo e com poucos eleitos.

O primeiro modelo (raso) não requer grande esforço: basta seguir o fluxo do pensamento. Mas o segundo modelo... Ah! Exige uma dose extraordinária de paciência e requer muita dedicação.

É comum os relacionamentos serem comparados com o cuidar de uma planta. E sobre plantas, conversando com um grupo de amigas, descobri que não basta aguá-la, podá-la e colocar algumas vitamininhas de potássio, fósforo e nitrogênio de vez em quando. Tudo isso, claro, faz com que a planta permaneça viva. Mas ela não lhe oferecerá sua beleza em todo o seu esplendor se você insistir nesse procedimento básico. É preciso trocar a planta para um vaso maior e também afofar a terra a cada um ou dois anos, orientaram elas. Dá muito mais trabalho do que eu imaginara.

Nos relacionamentos, como no cuidar das plantas, o procedimento e a manutenção básica são satisfatórios apenas ao convívio social. Como tudo o que importa nesta vida, nos relacionamentos que valem a pena é preciso ir além. É preciso forçar-se a descobrir uma nova pessoa naquela pessoa que você supõe já conhecer. E ao mesmo tempo reinventar-se para mostrar que você não é só essa pessoa que você mostra que é: você pode ser e é muitas outras pessoas dentro de você!

Masashi Sada, músico japonês, compôs letra e música chamada Kanpaku Sengen [ 関白宣言: “Declaração do Chefe”, em que o termo “chefe” se refere a um antigo cargo de Conselheiro-Chefe do Imperador]. Nela, além de muitas peculiaridades, ele evoca a imagem do marido ser a “casa” e a família da esposa. O comprometimento dela deve ser tanto que ela não mais deverá considerar sua família de origem como pessoas a quem recorrer ou uma casa para onde voltar.

A letra foi escrita a partir de um pedido pessoal feito ao músico por uma empresária, que observou que as mulheres à época (década de 70) não tinham a mesma fibra das mulheres em sua juventude. No entanto, mesmo em tom galhofeiro, foi mal interpretada por muitas mulheres no Japão.

Ora, se o casal pensar que sua única morada e sua única família são o outro, e se eles mantiverem em mente o voto de fidelidade, confiança e amor que fizeram na cerimônia de união, então talvez pela primeira vez surja a possibilidade REAL de que o amor seja tudo de que precisem, pois já terão o comprometimento total de serem o lar um do outro.

E se tiverem a convicção de que um ao outro é TUDO o que têm e que não existe nenhuma outra opção, então talvez possam viver uma história amor, desses amores reais, compostos por inúmeros incidentes corriqueiros e despretensiosos, mas que, somados, contam a belíssima História do Casal.

E, refletindo, não é isso que aconteceu conosco no papel de filhos, na casa de nossos pais, durante a nossa infância e adolescência? Não aprendemos a ver as várias pessoas que há no nosso pai e na nossa mãe? E nesse processo não fomos nos “reinventando” também? E isso não ocorreu porque aquela casa, aquele pai e aquela mãe eram o nosso único lar e nunca houve outra “opção” de lar, nem nunca nos passou pela cabeça procurarmos novos pais e novo lar para morarmos (por pior que fosse a briga/mágoa e por mais que fantasiássemos fugir de casa)?

Porque sabíamos que pertencíamos àquele lar.

Ser a “casa” de alguém e estar limitado a uma só “casa” são difíceis de se acatar em um mundo tão cheio de “opções”, ainda mais quando acreditamos ser assim tão independentes e auto-suficientes! Requer disciplina e muita dedicação. Mas vocês não acham que vale a pena?

O FIO DA MEADA

Nenhuma gentileza é pequena demais que não possa desencadear verdadeiros milagres.

No canal fechado GNT (www.gnt.com.br) há um programa chamado “Saia Justa” onde Mônica Waldvogel, Márcia Tiburi, Maitê Proença e Betty Lago se encontram semanalmente para conversar sobre diversos assuntos.

Em um dos programas a Betty lançou como tema uma pesquisa feita por uma instituição britânica entre estudantes de 6 a 18 anos. A pergunta era algo como: “se você pudesse eleger uma coisa que pudesse ser feita por um bilhão de pessoas visando melhorar o mundo, o que você elegeria?”

Enquanto elas conversavam fiquei matutando o que poderia ser simples que pudesse ser feito por um bilhão de pessoas e poderoso a ponto de mudar o mundo. E então veio: a GENTILEZA! Não seria fabuloso se um bilhão de pessoas fossem mais gentis umas com as outras? Isso não poderia mudar o mundo?

Uma famosa personalidade japonesa chamada Tetsuko Kuroyanagi escreveu artigos em uma revista ou jornal sobre sua infância passada na escola alternativa de ensino fundamental Tomoe Gakuen, fundada e dirigida por Sosaku Kobayashi. Depois, esses artigos foram reunidos em um livro chamado “Madogiwa no Totto-chan”, de Tetsuko Kuroyanagi [em inglês, “Totto-Chan: The Little Girl at the Window”, traduzido por Dorothy Britton, Kodansha International Ltd., 1a edição em 1996].

Na entrevista com o Diretor para ingressar na escola, Tetsuko, ou melhor, Totto-chan disparou a falar, falar, falar, e a falar sem parar. Contou sobre os vendedores ambulantes da rua, dos passarinhos que fizeram um ninho na árvore ao lado da sua sala de aula na escola que freqüentava antes, de seu cachorro e de muitas outras coisas. E ela falava rápido. Estava acostumada a ser interrompida por adultos sempre que abria a boca. Por isso, precisava aproveitar enquanto durasse o sorriso redondo daquele senhor. Soltou histórias e mais histórias. E as histórias acabaram. Tinha contado tudo o que queria. Silenciou-se, inquieta.

O Diretor: “E então, tem mais alguma história que queira me contar, Totto-chan?

Ela pensou com bastante afinco, pois a magnífica oportunidade não deveria ser desperdiçada, mas descobriu com um profundo desapontamento que não, que já não tinha mais nada que pudesse contar. Nem que quisesse (e ela queria), não havia mais nada a dizer.

Tinha à época sete ou oito anos, e não se recorda de quanto tempo ficou falando. Mas, feitas as contas depois de adulta, calcula que o Diretor ficou nada mais nada menos que QUATRO horas à disposição da pequena Totto-chan, escutando todas as suas histórias. Confidenciou que em toda a sua vida o Diretor fora a única pessoa, antes e depois desse evento, a lhe dar atenção por um período ininterrupto tão longo.

Esse é um tipo de gentileza genuíno e de uma generosidade enorme, não concordam? Doar seu tempo é um luxo a que poucos se podem dar...

Não é à toa que em japonês a palavra gentileza (yasashisa 優しさ) utiliza o ideograma que tem em seus significados a nobreza, a abundância, a flexibilidade, a densidade, a amplitude e a grandeza... e o mais interessante: possui o significado de arte no sentido de atuar e encenar. Um ato polido pode ser facilmente confundido com uma gentileza, mas a verdadeira gentileza tem um quê a mais, pois é acompanhada pela bondade.

No Japão há um interessante provérbio que diz: “Havendo vento, lucro do artesão de barris.” [kaze ga fukeba okeya ga moukaru 風が吹けば桶屋が儲かる]. Como no famoso “efeito borboleta”, o que chama a atenção é a inexistência de um motivo coerente para que um artesão de tonéis de madeira aumente suas vendas após um simples soprar do vento.

Investiguemos melhor esse dito no contexto do Antigo Japão. Ora, é sabido que ventos levantam poeira e o pó da terra. O pó da terra entra nos olhos dos incautos. A incidência de pessoas com problemas de visão aumenta, e os que já tinham problemas nos olhos têm maior probabilidade de perderem a visão. Os que perdiam a visão compravam “shamisen” [instrumento musical japonês de três cordas], já que os cegos sobreviviam fazendo rondas pelas casas tocando “shamisen”. A caixa de ressonância dos “shamisens” têm um tampo feito com pele de gato. Menos gatos, profusão de ratos. Mais ratos, mais barris danificados, pois estes costumavam armazenar mantimentos e eram guardados em sótãos/porões, lugares favoritos dos ratos. Um barril danificado requer a reposição por um novo. Novos barris, novos pedidos: aumento no lucro do artesão de barris.

Como vêem, dois eventos aparentemente sem nenhuma conexão ocorrem com o desdobrar lógico de acontecimentos inesperados. Da mesma forma, se um bilhão de pessoas começar a praticar a gentileza todos os dias, não seria grande a chance de acontecer algo extraordinário e surpreendente?

E não é excitante pensar que esse planeta tão lindo também esteja povoado de pessoas gentis?

A ETERNIDADE QUE ESCOA PELOS DEDOS

Portas secretas se abrem para os que admitem o desconhecimento.
Quando jovens, alguns de nós levamos muito a sério as grandes decisões da vida no sentido de, uma vez tomadas, deverão “valer” para toda a vida; nem nos passa pela cabeça que elas podem ser reconsideradas e até mesmo, eventualmente, descartadas e substituídas por outras opções. Não enxergamos que perturbações nas circunstâncias originais podem requerer mudanças e ajustes nas escolhas que fazemos.
Por exemplo: na época de vestibular muitos acreditam que a escolha de uma carreira será uma decisão definitiva e imutável e que a ela deverão fidelidade incondicional e eterna.
De onde será que vem essa crença absurda? Eu não sei, mas eu mesma custei a livrar-me dessa idéia de “irreversibilidade”.
Talvez seja porque os jovens tendem a achar que a juventude é eterna, que os eventos são imutáveis, e concluem com a mais inabalável certeza: todas as escolhas são para sempre...
Ou talvez essa convicção venha do sistema de ensino onde só há uma única resposta correta (na mais bem-sucedida aplicação do conceito econômico de escassez): somente um único ser, aquele que for o mais rápido e bem-adaptado ao sistema contemporâneo, receberá o único prêmio que existe. Somente quem encontrar a única resposta correta terá o louvado reconhecimento.
Contudo, não é a Einstein que é atribuída a frase: “eu penso, e por isso não me envergonho por mudar de opinião”?
Isso me remete a uma orientação maravilhosa ao modo de encarar a vida dada pela pedagogia Waldorf: nas aulas de matemática os professores são encorajados a reverterem a pergunta do “qual é a solução desse problema?” por “como é que obtemos essa solução?”. Um exemplo simples: ao invés de perguntarem aos alunos “quanto é 5+9?”, os professores perguntam “como é que vamos conseguir obter 14?” Os alunos com maior habilidade numérica logo vão construir expressões mais elaboradas e complexas, mas isso não impedirá os menos hábeis de lançarem um “10+4”, “28/2”, etc. Ou seja, TODOS os alunos participam porque a formulação da pergunta permite infinitas respostas corretas para o problema! Isso não é maravilhoso de se ensinar a uma criança ou adolescente? Saber que há infinitas alternativas e infinitas respostas corretas é realmente excitante. Incentiva a criatividade. Incentiva a ousadia. Incentiva a investigar. Incentiva a se aprofundar para obter respostas cada vez mais elaboradas e complexas. Vejam o que uma simples mudança de foco (neste caso, a formulação da pergunta) pode fazer!
No caso das decisões, a simples constatação (e aceitação) de que elas poderão, se necessário, ser alteradas, já nos abre infinitos caminhos.
O ideograma japonês para “decidir” contempla originalmente a imagem da água confinada em um dique que encontra um furo e escoa, livre e rapidamente, por esse orifício.
Nós temos todas as informações necessárias dentro de nós, cuidadosamente armazenadas, acumuladas ao longo de anos, que nos dão o fundamento para tomarmos nossas decisões. Se nos falta qualquer informação, temos todos os meios para reconhecer e criar o impulso necessário a fim de obter esse dado faltante.
E para decidir, tudo o que precisamos é de uma única afirmação, pois as decisões nada mais são que afirmações que fazemos a nós mesmos. Uma vez dita, ela tem o poder de liberar toda a energia represada dentro de nós para a ação, para que algo seja efetivamente feito.
Quais são as decisões dentro de você que ainda não foram tomadas porque ainda não encontraram uma afirmação? Tenho certeza de que há muitas afirmações silentes que ainda não puderam vir à tona porque-isso ou porque-aquilo... Decida-se a afirmar. Um mundo se abrirá diante de seus olhos!
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Agora, permitam-me uma pequena anedota sobre a idade.
Outro dia lembrava que aos 18 anos qualquer pessoa com 25 anos era uma pessoa com muita experiência: pensava que seria madura aos 25 anos. Aos 23, comecei a achar que talvez não fosse assim, que eu atingiria uma vida experiente aos 30. Aos 28, posterguei-a para os 35 anos. Aos 33, para os 40. E depois de 36, desisti por completo de ficar querendo ser “sábia” e “madura”. Essa recordação, por outro lado, fez-me refletir como muda a nossa percepção do que consideramos ser uma “pessoa velha” em relação à idade biológica. Observem os comentários de uma criança quanto à “velhice”, e descobrirão que qualquer um com mais de 18 anos já é uma pessoa “muito velha” (!). --- E pudera: para uma criança de seis anos, dezoito anos representa três vezes a sua idade!
Não vale a pena falar sobre a idade. Da sabedoria e maturidade, então, nem se diga! O espírito jovial que cultivarmos dentro de nós é o que nos ajudará a acompanhar saudavelmente o enrugar da pele e o encolhimento do corpo.

UM MOTIVO PARA CULPAR, DOZE PARA PERDOAR

O horizonte se alarga quando desistimos de nos debater.

Passamos a vida recolhendo, colecionando, trazendo coisas para dentro da casa e sentimentos para dentro da alma. Relutamos descartá-las. E quanto maior o tempo que os mantemos, mais acalentamos e com mais força retemos. Nesse amontoado de objetos e sentimentos, o cérebro perde sua capacidade de discernimento. É como trancar um compositor de músicas em uma sala fechada tocando no modo repeat a sua peça favorita no último volume e deixá-lo com a missão de compor uma música de gênero completamente diferente. Por gostar da peça, ele se distrairá facilmente sem conseguir se concentrar na sua tarefa.

Na cultura oriental penso que são consideradas com maior severidade as faltas efetivamente cometidas, ou seja, quando as pessoas ultrapassam a linha invisível das regras socialmente estabelecidas e fazem o que supostamente não deveriam fazer. E, no entanto, quando alguém deixa de fazer algo que deveria ter feito, isso não é considerado tão grave.

Não é contraditório que uma FALTA tenha sido cometida pelo EXCESSO?

Os que conseguem se conter, resistem firmes aos desejos “censuráveis” e NÃO FAZEM, esses são virtuosos. Já os que se deixam levar pela vontade e AGEM, esses são vistos com “olhos brancos” [shirome], uma expressão japonesa onde os olhos são direcionados sobre os hipotéticos desmerecedores de forma que a pessoa se sinta insignificante.

Logo, para evitar cometer qualquer falta, as pessoas se paralisam com o medo e concluem que a melhor estratégia é (adivinhem!): não fazer nada. Começa assim o conflito de terem plena consciência de que queriam fazer, mas que não deveriam querer. E vem a famosa c-u-l-p-a.

Mas e quanto ao arrependimento? “Eu me arrependo, me desculpe, tire este fardo sobre mim, por favor! Com uma única palavra, gesto ou olhar, você me libertará desta horrenda culpa.”

Vocês sabem que não é bem assim. Não basta o outro nos des-culpar, ou seja, desfazer a culpa lançada sobre nós. No ato de culpar há o erro (dor), o culpado e o “culpador”. Embora estejam em pólos opostos --- acusado no pólo passivo e acusador, no ativo ---, em ambos recai a mesma dor.

Muito se disse que os que mais impiedosamente julgamos e os que menos facilmente perdoamos somos nós mesmos. Eu concordo. Dá muito prazer sentir que somos magnânimos por perdoar o outro: o mundo inteiro vê isso como um ato muito nobre. Mas perdoar-se, ah, isso revela uma fraqueza humana de um comodismo extremo quase inaceitável!

É mesmo incrível observar que nós ainda não sabemos direito como lidar com a culpa que nasce em nós. Deveríamos simplificar as coisas e os sentimentos: okay, erramos; refletimos com atenção a respeito; fazemos alguma coisa para reparar o erro; fechamos o assunto. Aprendemos a lição. Libertamos a culpa. Passamos para a próxima lição.

Mas, não! Obviamente, as coisas precisam ser complicadas. E por sermos incapazes de nos perdoarmos, por retermos a culpa dentro de nós por tanto tempo, acabamos infectando o corpo físico. (As pessoas adoecem por nutrirem a culpa!)

A palavra “perdoar” em japonês [yurusu] possui diversos significados e há doze ideogramas para representá-los. Dentre os mais interessantes estão: a) dar à luz uma criança; b) deixar fugir; c) largar ou libertar; d) ver os fatos com compaixão; e) acreditar como verdade e aceitar; f) despir-se; g) derreter ou diluir; h) receber; i) procurar pela origem; j) ouvir com muita atenção.

Ironicamente, atualmente a palavra mais coloquialmente utilizada para “culpa” [sei] não é expressa com nenhum ideograma! (Antigamente a palavra [sei] era escrita com dois ideogramas, mas caiu em desuso e hoje ele é escrito em hiragana, isto é, sem o uso de ideogramas.)

Podemos concluir que para culparmos (nós mesmos ou outrem) não precisamos refletir nem pensar muito a respeito: simplesmente culpamos. Já para perdoar, precisamos de uma dúzia de etapas: internalização, investigação, compreensão, aceitação, diluição da dor e, finalmente, liberação!

Longe de mim suscitar a auto-complacência e a carência de autocrítica. O que gostaria de fomentar é que as pessoas não fiquem carregando uma cruz por mais tempo do que o necessário (sim, é preciso carregá-las por um certo período de reflexão). Deveríamos carregar o que quer que fosse até aprendermos a lição. Depois, é preciso liberar essa coisa. Assim estaremos livres para aprender uma nova lição.

Sejamos, pois, mais práticos com o perdoar tanto quanto o somos com o culpar!

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Faltou falar sobre os que acham que o erro cometido é imperdoável, inaceitável, irreparável. Engrandecem o erro mais do que ele merece. Qualquer ocasião, qualquer incidente é motivo para relembrarem e reviverem a culpa do outro. Nasce o rancor e morre a paz de espírito. Será que vale a pena manter essa troca? O que de bom traz o ressentimento? Que coisas maravilhosas ele impulsionará e criará em sua vida?

Estar no pólo ativo (acusador) não significa, necessariamente, que se está no comando nem, muito menos, no controle da situação.

Pense nisso.

E FAÇA alguma coisa antes que perceba ter perdido anos de sua preciosa vida enrugando a pele e também a sua alma. Ultrapasse a linha. Exceda-se!

PROCURE PELAS PERGUNTAS

Em tempos de dúvida ou de crise, as perguntas é que te salvarão, não as respostas.

Reli um livro que foi recomendado durante uma aula de literatura no colégio. Estudei em um colégio técnico e só tivemos aula de literatura no último ano. A professora iniciou uma das aulas nos recomendando com entusiasmo a leitura de um livro maravilhoso que nos mostraria tudo o que precisaríamos saber e conhecer da juventude, da morte, da pobreza, da riqueza, da beleza, da bondade e da verdade. Depois dessa preliminar, já quis logo saber o nome do livro, e fiquei decepcionada com o título: “Servidão Humana” (William Somerset Maugham, “Of Human Bondage”). Eu costumo adquirir muitas coisas pela aparência, embalagem, título, capa.... O título não me agradou nem um pouco, pois me veio à mente uma história de subserviência, de pesadas correntes e bolas de ferro presas nos pés, de prisão, de castigo e outros sem-números de cenas desagradáveis. Mas a professora foi tão enfática, que anotei o nome do livro e ele deve ter sido armazenado em algum recôndito do meu cérebro, pois eu acabei por lê-lo um ou dois anos mais à frente. Estava no primeiro ano da faculdade, entediada com as aulas, não conseguia enxergar perspectiva de uso prático com o que apresentavam nas salas de aula e eu não sentia nenhum talento para aquilo. Minhas grandes alegrias durante aqueles anos foram os amigos que fiz e os ônibus com o enorme tempo de leitura que me proporcionavam: horas acompanhando Jane Austen, Maugham, Stendhal, Gore Vidal, Harper Lee... Lia tudo com avidez - não a do conhecimento, mas (vergonhosamente) pelo tosco prazer de dizer que já lera este ou aquele. Do que li, somente algumas obras me ficaram no coração, e mesmo assim, somente um ou outro trecho e idéia.

De “Servidão Humana”, lembro que me ficou a recordação do personagem principal (Philip Carey) ter encontrado a resposta para o significado da vida. Percorri ansiosa as palavras para saber qual o importante significado da vida e me decepcionei. A vida é desprovida de sentido, concluía Philip, sendo que, para mim, a vida TINHA de ter um sentido (e grandioso, se possível, please).

Uma das boas coisas ao se reler um livro é que ele se lhe apresenta de uma forma totalmente diferente, parece até mesmo um outro livro. E se não fosse a longa fila de livros-ainda-por-ler e o tempo que cada leitura me consome, eu me daria o prazer de reler todos os livros que li nos meus vinte anos. Aprenderia muito mais coisas, certamente. Mas isso é pura nostalgia, e é melhor deixar os vinte com os vinte, e desfrutar dos quarenta de hoje.

Uma observação muito interessante que a professora de literatura ponderou à época foi que o livro deveria ser lido impreterivelmente ANTES de completarmos vinte e cinco anos, pois depois dessa idade não nos seria de nenhuma utilidade. A maioria de nós tínhamos dezoito anos, o que nos dava sete anos para lê-lo. Um aluno perguntou o porquê desta idade limite, e ela respondeu, lacônica: “vocês saberão quando lerem o livro”.

Devo confessar que quando terminei de lê-lo, aos vinte, continuei não entendendo porque deveria ser lido antes dos vinte e cinco anos. Uma boa dica vinda de uma amiga sobre esta idade limite foi que depois dos vinte e cinco anos nosso tempo se exaure com o trabalho, casamento (ou não-casamento), entre outras coisas, e não nos sobra muito tempo para a leitura pura e simplesmente...

Em certa altura, Philip pergunta a um de seus professores de arte se ele possui talento para seguir a carreira e ser um artista de primeira linha. Seus recursos financeiros estão se extinguindo e ele tem um espírito muito prático. Philip fez a pergunta correta: ele possui o talento que o fará emergir como um artista de renome? Valerá a pena suportar a pobreza e a privação, ou será um esforço em vão, como o de muitos que ele testemunhava na Paris do final do século XIX?

Ao deixarmos de fazer as perguntas, deixamos de ter as respostas. E a maioria de nós, quando confrontada com as decisões da vida, procura pelas respostas certas. Contudo, mais do que ter as respostas certas, o mais importante é fazermos as perguntas certas. Porque as respostas surgem após as perguntas, e não antes delas.

E como fazer para formularmos as perguntas? Precisamos despender tempo a pensar e a refletir sobre o assunto. Descobri que meu pensamento voa quando faço uma atividade mecânica banal como varrer o chão ou caminhar. E, também, quando escrevo ou falo comigo mesma. Não é à toa que nos consultórios psicanalíticos os pacientes são postos a falar, falar, e falar. Conversar consigo mesmo é uma coisa fascinante e o recomendo para todos os que tenham alguma inquietação na alma. Falem e façam perguntas, cada vez mais profundas, e vão conseguir chegar ao âmago da questão, que te guiará para as respostas que tanto procuram.

O nosso processo de descoberta deve seguir esse mesmo padrão. Comece com uma frase e depois vá se perguntando os porquês. A cada resposta faça uma nova pergunta e será impelido para uma camada mais profunda. Nós, seres humanos, somos especialistas em criar subterfúgios a fim de acobertar nossos desejos mais autênticos por medo, vergonha, falta de confiança, descrença ou até mesmo preguiça. E cada vez que os escondemos, vamos nos dando motivos mais e mais engenhosamente elaborados para nos convencermos de que estamos fazendo a coisa certa ao enterrar para sempre aquele desejo autêntico. Para reverter esse processo e chegarmos à fonte dos desejos adormecidos, precisamos ter a paciência de revelar, um a um, pedaço a pedaço, as nossas falsas-verdades. E para isso é que servirão as perguntas. Elas é que te salvarão do ordinário, do vulgar, do tanto-faz...

No idioma japonês usa-se o verbo “ouvir” com o sentido de “perguntar”. Assim, por exemplo, a frase “Pergunte a seu professor”, lida ao pé da letra com o verbo “ouvir”, seria: “Ouça o que seu professor tem a dizer”.

Então... Ouça o que você mesmo tem a dizer, e as respostas que tanto deseja certamente te surpreenderão!

A BELEZA NA SOLIDÃO

A vida se transforma com a descoberta de pequenos detalhes.
Dia desses estava a ler “Borboletas da Alma”, de Drauzio Varella (Varella, Drauzio, Borboletas da Alma - Escritos sobre Ciência e Saúde, Organização Maria Guimarães, São Paulo: Companhia das Letras, 2006) e parei intrigada na página 59 quando li que “(...) existem serem imortais, e são muitos.” --- Como assim, seres imortais? Não morrem? NÃO MORREM NUNCA?

Levantei os olhos do livro e comecei a buscar que tipo de seres vivos poderia se encaixar na até-então-improvável categoria de “ser vivo imortal”, designada (ao menos para mim) somente a seres etéreos e entidades superiores... Não consegui pensar em nenhum ser que eu soubesse fosse imortal. Continuei a leitura e descobri que existem bactérias, por exemplo, que são tomadas como imortais porque se dividem sucessivamente formando indivíduos iguais e idênticos entre si. Como o próprio senhor Varella conclui, como poderíamos dizer que a bactéria morreu se não há cadáver dela?

Na verdade, o que houve foi uma transformação: um corpo se dividiu em duas réplicas idênticas, que também vão se subdividir respectivamente em outras duas réplicas idênticas, e assim sucessivamente, eternamente... Elas podem, por uma eventualidade, morrer (de fome ou pelas condições de temperatura do ambiente), mas se as condições forem adequadas vivem para sempre nessa perpétua subdivisão de si mesma...

O universo é imenso e tantos fenômenos ocorrem que nos são ainda desconhecidos! O contrário de morrer não é necessariamente viver com o mesmo corpo e nas mesmas circunstâncias. As transformações são mesmo inerentes ao Universo; nada permanece imutável por toda a eternidade, tudo é infinito enquanto dura.

Estamos habituados a dividir confortavelmente o mundo em dois: branco e preto, certo e errado, bom e mau, fácil e difícil, caro e barato, bonito e feio, feliz e infeliz. E essa reflexão sobre a dualidade, especificamente sobre a felicidade/infelicidade, trouxe-me à memória um velho recorte de jornal de uma charge (NOW SEM RUMO/Lor, Agência Punarte, Pro Renato, Lor 342) que guardo desde a minha adolescência.

São três quadros. No primeiro vemos um senhor idoso, rico e calvo sentado em uma cadeira fumando um charuto enquanto pensa: “Bem cedo descobri que a infelicidade vem quando a gente se torna dependente afetivamente!”

E em um outro balão de pensamento, ele continua: “Para não ser infeliz passei a vida evitando qualquer ligação mais profunda com pessoas!”

No segundo quadro, vemos que a cadeira em que ele está sentado é de rodas e que um manto cobre suas pernas. Continua o pensamento: “Hoje sou um homem livre, mas descobri outra coisa...”

No último quadro, ele conclui: “a felicidade NÃO é o contrário da infelicidade!” (grifo meu)

Uma outra percepção aludida por essa charge é a de escolher ser deliberadamente solitário em oposição a se sentir solitário. Muitas pessoas temem a solidão, pois ela é vista impregnada com um sentimento de tristeza, melancolia, a imagem do desamparo e da indefesa. É quando nos sentimos solitários (e queremos desesperadamente a companhia de uma pessoa amiga).

E, no entanto, a solidão é muito importante, pois é somente ela que nos propicia centrarmos nossa atenção em nós mesmos sem a distração externa, em que aprimoramos nossos pensamentos, refletimos sobre as situações da vida para contemplar a beleza, a alegria, a ternura, e também é nela que podemos abordar nossos problemas cotidianos para tentar encontrar uma solução. É o único momento de paz e de silêncio para conversarmos conosco, e deve ser mais respeitado e muito melhor aproveitado, e não negado, nem, muito menos, temido.

O ideograma japonês correspondente a “silêncio” (que é originário do ideograma chinês), é formado por dois radicais: no lado esquerdo, o radical que significa “controlar” e no direito, o “conflito”. Assim, quando controlamos o conflito, surge o silêncio.

Neste início de século XXI onde apreciar a solidão é mal visto e muito mal compreendido, penso ser importante resgatar o silêncio e a conversa consigo mesmo para retomarmos o equilíbrio do espírito e a comunhão entre a mente e o coração. Afinal, a pessoa mais importante do mundo sempre será o “eu”; e não se enganem: por mais que amemos uma pessoa, ela sempre virá depois do “eu”. Então, que tal cuidarmos com mais ternura desse “eu”?

E por mais estranho que possa parecer, vem a pergunta: e como seria um bem-cuidar de si mesmo? A resposta me veio aos poucos e com a infinita paciência de uma amiga que me é muito querida. É incrível como temos tão pouca habilidade de nos cuidarmos bem... Não é uma coisa fácil como pode parecer à primeira vista. Requer esforço e um grande amor a si mesmo (e creio que seja nesse segundo quesito que todos faltamos: simplesmente achamos que não devemos ser egoístas o suficiente para pensarmos em nós mesmos antes da comunidade ou do outro, que não devemos pensar no nosso próprio prazer de-li-be-ra-da-men-te, mas procurar dar antes de pedir, e que todo o sofrimento atual será recompensado em um futuro (muito pouco) próximo!).

E essa resposta, que ainda estou procurando inserir na minha vida, é: cuidando de seu corpo e do seu espírito. Do seu corpo, alimentar-se bem, exercitar-se, dar-se o prazer de sentir a beleza através de todos os sentidos. Contemplar coisas belas, ler textos que elevem seu espírito ou agucem sua imaginação, ouvir músicas agradáveis, ter contato com superfícies que lhe confortem, sentir o aroma delicado de uma flor, degustar um pão que acabou de sair do forno... Do seu espírito, fortalecê-lo com a disciplina, a vontade, a perseverança, a temperança. Isso é cuidar-se com esmero. Alimentar sua alma com a beleza e a bondade e alimentar a sua mente com o pensamento e a imaginação.

E como uma última observação sobre a beleza, o ideograma japonês para “sabor” ou “gosto” é formado pela idéia de perceber a beleza através da boca! Sintamos, pois, a beleza em todos os sentidos! Nós merecemos.